Três semanas antes...
Ivan estava
posicionado próximo à pista de pouso. Foi tudo tão corrido que a passagem pela
cantina pareceu não ser registrada pelo seu cérebro, mas o gosto de mortadela
em sua boca ainda era recente.
Fazia vinte
minutos que os pilotos se comunicaram com a torre informando sobre a viagem.
Ivan repensava essas e outras informações, quando viu no azul do céu dois
pequenos e distantes pontos no horizonte se aproximando lentamente.
Chamou a atenção
de toda base quando o barulho dos motores mostrou a imponência dos dois aviões C130 Hércules[1] que aterrissavam. Era
rotineiro, mas não deixava de ser algo prazeroso de se presenciar.
Após o pouso veio
o desembarque. O primeiro avião viera com grande quantidade de equipamentos:
armas, coletes, munições. Coisa que a base não via há bastante tempo. O segundo
avião estava carregado de soldados, todos novatos. Carne nova, no jargão do
militarismo. Tudo normal, não fosse a presença feminina dentre os novos
combatentes.
Parados próximos ao
hangar, os novatos ouviam as primeiras instruções. Daqueles noventa
recém-chegados, sessenta eram mulheres. Dentre elas, uma chamava mais a atenção
pelo porte físico: era alta, com mais de 1,90 m; robusta, tendo entre 80 e 85
quilos; carregando severidade e altivez no olhar. E excluindo ela, todos tinham
o brilho da curiosidade nos olhos.
Por um tempo ela observou
Ivan e depois voltou a sua atenção ao oficial palestrante: Charles. Era o mesmo
discurso padrão usado para a recepção de novatos e, após rápidas instruções,
todos foram dispensados.
A verdade é que os
soldados veteranos tinham uma missão programada, e agora descansavam em seus
alojamentos. Ficaram para recepcionar os recém-chegados apenas os auxiliares e
capitães. Antes do término desse protocolo, Ivan só pensava em um lugar e
quando pode correu para lá:
– Martina, por
favor! Tive que recepcionar os novatos.
Martina era a
sargento responsável pelo refeitório, trabalhando nessa função há anos. Detinha
tal firmeza no agir, que poderia ser esse o seu sobrenome.
– Não posso, já
passou do horário – disse apontando o relógio.
– Eu estava preso
aos afazeres, mas não o esqueci nenhum minuto – Ivan salivava.
– Se deseja tanto,
terá que preencher os requerimentos em três vias, autenticados em cartório e
assinados pelo comandante – falou séria.
– Qualquer coisa!
Qualquer coisa!
– Ok rapaz. Você
venceu. – disse sorrindo.
Martina foi e
voltou da cozinha, trazendo um prato com dois pães cortados e grossas fatias de
mortadela, um deles estava mordido pela metade. Na outra mão, uma caneca com
café quente:
– Da próxima vez,
te deixo com fome.
Tentava manter a
seriedade:
– Deus a abençoe
por ter piedade de um simples cabo – falou em tom gaiato e tocando-a no ombro.
– Deixando as
brincadeiras de lado, sei que você vale à pena e que juntando muitos aqui, não
daria um como você Ivan.
– Obrigado – respondeu,
um pouco tímido.
Feliz, ela abriu
seu largo sorriso e regressou para a cozinha, seu território. Ninguém naquela
base ousava questionar sua autoridade naquele recinto, nem mesmo o general. Rezava a lenda que certa vez ele
reclamou da comida sem gosto. Inconformada com o comentário, Martina solicitou
as férias que se acumulavam há cinco anos e três dias depois embarcou no avião
rumo à América. Porém não havia, nem houve, substituto à altura, então o que se
seguiu naquela cozinha foi algo tenebroso: refeições salgadas, insossas e por
vezes estragadas. A gota d’água foi um cabelo na sopa do general. O próprio
exigiu que Martina fosse trazida perante ele e assim aconteceu, mas ela veio
com papéis que solicitavam sua imediata transferência. Diante da situação, o
general simplesmente implorou para que ela permanecesse. Claro que essa parte
da conversa não chegou aos ouvidos de mais ninguém, mas a verdade é que 6 meses
depois dessa “reunião” Martina foi promovida.
O cabo pegou o
lanche e foi para uma das mesas, enquanto a fila do refeitório crescia formada pelos
novatos. Ivan fez uma rápida prece e os observou enquanto lanchava. Boa parte
se entrosara, sendo possível ver a formação de grupos, e outros permanecendo a
sós. Durante segundos ele olhou através da janela da cantina, pensando no que
deveria fazer mais tarde, coisa fácil de imaginar. Sentia uma vivacidade nos
olhos e os reflexos mais rápidos: o corpo pedia ação. A preparação para a
missão sempre o deixava assim, mas sabia que deveria descansar pelo período da
tarde, pois o tempo da missão era impreciso.
Seus pensamentos
se desfizeram quando mesa e banco tremeram: a novata sentou-se próxima a ele,
que parou de mastigar. O cabo sentiu-se pequeno ao observar o porte da garota,
e Ivan não era dos mais baixos ou dos mais fracos, media 1,78m e 84 quilos
muito bem distribuídos em sua composição física.
“Guynive S.
Troyans” – leu mentalmente a identificação no uniforme da novata.
Esta encarava o
lanche na bandeja à sua frente. Com o canto da boca o cabo deu um sutil sorriso
como se dissesse:
“– É, tem dias que
a refeição também faz parte do treinamento.”
Ela se manteve
indiferente ao olhar e ao sorriso, e iniciou a refeição. Esse foi o primeiro e um dos mais amistosos
contatos que tiveram.
O cabo leu a placa
anunciando o cardápio para o almoço: almôndegas, mas o pessoal as conhecia como
granadas. Riu para si, e a garota o olhou, estranhando.
Josef veio em sua
direção desviando por entre as mesas:
– Senhor, os
capitães Marquez e Ralf pediram para que os encontrasse, se possível
imediatamente.
– Claro.
Ivan se levantou e
a olhou pedindo:
– Com licença.
Não teve resposta
e também não percebeu que Guynive o observou até passar pela porta. Dali o
mensageiro tomou outro caminho.
Pelo caminho Ivan
encontrou o sargento Camintown e outros auxiliares. Certamente começariam a
acomodação dos novatos e lhes informaria o funcionamento da base.
Camintown era um
negro alto e forte, vindo de Nova Orleans. Era carrancudo, mas de boa cordialidade.
– Bom dia, cabo!
Está um ótimo dia para movimentar tropas, não acha?
– Bom dia,
sargento. Tem razão...
Camintown o observou
ressabiado:
– Conheço esse
olhar, o que quer me dizer?
– Nada demais
sargento, só que os novatos chegaram há pouco e estão exaustos.
– Você não estaria
tentando me comover, estaria cabo Ivan? – e lhe lançou um olhar mais detalhista
– sempre pensando nos outros. Sequer tem dormido?
Ivan ficou
desconcertado com a análise tão assertiva.
– Um pouco, quando
dá.
Camintown sorriu
mostrando seus dentes brancos como marfim:
– Se o senhor conseguiu
aguentar o tranco, os recrutas também podem – respondeu brusco ao sair – até
mais ver.
O cabo sabia que
ele não cometeria excessos, mas chegaria ao limite dos novatos.
Por ora aquele não
era o problema, Ivan conjecturava o motivo de ser chamado enquanto tornou a
caminhar. Poucos metros à frente encontrou os capitães e se apresentou a eles.
Ao prestar continência percebeu os semblantes abatidos:
– Ivan lhe temos
apreço, pois em sua companhia realizamos grandes feitos – começou Ralf.
– Mas nesse
momento tudo parece conspirar contra nós – ao que Marquez estendeu-lhe uma
pasta – leia o campo 27.
A pasta era um
resumo curricular dos recém-chegados. No campo 27 havia a seguinte pergunta:
“TEM EXPERIÊNCIA EM
CAMPO/COMBATE?”
A maioria das respostas
era:
“NÃO”
Ivan fechou a
pasta e, com olhar sóbrio, encarou seus superiores:
– São apenas
recrutas com treinamento básico – Ralf balançava negativamente a cabeça.
– Senhores, creio
que à primeira vista seja um grave problema, mas não de difícil solução –
observou Ivan.
– Estou preocupado
com esse pessoal tão inexperiente num caldeirão como esse nosso – acrescentou
Ralf.
– Que fique claro
que essa é uma conversa totalmente informal. Pelas regras seria impossível que
você nos assessorasse – Marques foi enfático.
– Mas consideramos
aqui o seu passado. Sabemos quem você era, e lendo a sua ficha, confirmamos
suas ações. Então essa seria uma conversa entre iguais –
Ivan não gostou
muito do que ouviu.
– Já passou por
algo parecido antes? – Marquez almejava por uma resolução.
– Talvez, mas não
consigo organizar meus pensamentos por agora.
– Algo o incomoda?
– indagou Ralf.
– Sim, saio em
missão dentro de poucas horas.
– Tinha me
esquecido, eu também vou. Já liberamos todos os soldados e ficamos nós com nossas
conjecturas – confirmou Marquez.
– O problema é tão
grave que nos esquecemos das demais coisas. Eu mesmo ainda não tomei o café da
manhã.
– Ah não? Então
vão até a cantina e vejam se as patentes de vocês podem fazer Martina liberar
os lanches – falou Ivan lembrando a situação há pouco vivida.
– Sinto um tom de ironia
na sua frase.
Riram e se
despediram.
Durante aquele dia
Ivan inspecionou todos os equipamentos e conversou com os soldados que
participariam da missão, após o almoço estava cansado. Com tudo organizado,
caminhou até o alojamento desejando o repouso. Chegando à sua cama, uma carta,
onde reconheceu o rementente:
“C. T. COSTELLO – ADVOGADO
DE FAMÍLIA – SR. IVAN, FAVOR ENTRE EM CONTATO”
Aquilo lhe causava
preocupação. Não sabia como o localizaram, mas esta já era a terceira em dois
meses. Ivan banhou-se e após se vestir, ajoelhou orando:
– Deus Altíssimo, ajude-nos
com esta demanda. Os riscos são altos e sangue inocente pode ser derramado. Dá-nos
tua misericórdia, proteção e sabedoria. Amém!
Quarto em
penumbra, silêncio pelos corredores. Rápido o sono lhe veio.
[1] C130 Hércules - Avião de que possui muita versatilidade. Pode levar
soldados, veículos, equipamentos, e até mesmo abastecer outras aeronaves.

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