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3.2.16

C01 - Bem-Vindos


Três semanas antes...


Ivan estava posicionado próximo à pista de pouso. Foi tudo tão corrido que a passagem pela cantina pareceu não ser registrada pelo seu cérebro, mas o gosto de mortadela em sua boca ainda era recente.
Fazia vinte minutos que os pilotos se comunicaram com a torre informando sobre a viagem. Ivan repensava essas e outras informações, quando viu no azul do céu dois pequenos e distantes pontos no horizonte se aproximando lentamente.
Chamou a atenção de toda base quando o barulho dos motores mostrou a imponência dos dois aviões C130 Hércules[1] que aterrissavam. Era rotineiro, mas não deixava de ser algo prazeroso de se presenciar.
Após o pouso veio o desembarque. O primeiro avião viera com grande quantidade de equipamentos: armas, coletes, munições. Coisa que a base não via há bastante tempo. O segundo avião estava carregado de soldados, todos novatos. Carne nova, no jargão do militarismo. Tudo normal, não fosse a presença feminina dentre os novos combatentes.

Parados próximos ao hangar, os novatos ouviam as primeiras instruções. Daqueles noventa recém-chegados, sessenta eram mulheres. Dentre elas, uma chamava mais a atenção pelo porte físico: era alta, com mais de 1,90 m; robusta, tendo entre 80 e 85 quilos; carregando severidade e altivez no olhar. E excluindo ela, todos tinham o brilho da curiosidade nos olhos.
Por um tempo ela observou Ivan e depois voltou a sua atenção ao oficial palestrante: Charles. Era o mesmo discurso padrão usado para a recepção de novatos e, após rápidas instruções, todos foram dispensados.
A verdade é que os soldados veteranos tinham uma missão programada, e agora descansavam em seus alojamentos. Ficaram para recepcionar os recém-chegados apenas os auxiliares e capitães. Antes do término desse protocolo, Ivan só pensava em um lugar e quando pode correu para lá:
– Martina, por favor! Tive que recepcionar os novatos.
Martina era a sargento responsável pelo refeitório, trabalhando nessa função há anos. Detinha tal firmeza no agir, que poderia ser esse o seu sobrenome.
– Não posso, já passou do horário – disse apontando o relógio.
– Eu estava preso aos afazeres, mas não o esqueci nenhum minuto – Ivan salivava.
– Se deseja tanto, terá que preencher os requerimentos em três vias, autenticados em cartório e assinados pelo comandante – falou séria.
– Qualquer coisa! Qualquer coisa!
– Ok rapaz. Você venceu. – disse sorrindo.
Martina foi e voltou da cozinha, trazendo um prato com dois pães cortados e grossas fatias de mortadela, um deles estava mordido pela metade. Na outra mão, uma caneca com café quente:
– Da próxima vez, te deixo com fome.
Tentava manter a seriedade:
– Deus a abençoe por ter piedade de um simples cabo – falou em tom gaiato e tocando-a no ombro.
– Deixando as brincadeiras de lado, sei que você vale à pena e que juntando muitos aqui, não daria um como você Ivan.
– Obrigado – respondeu, um pouco tímido.
Feliz, ela abriu seu largo sorriso e regressou para a cozinha, seu território. Ninguém naquela base ousava questionar sua autoridade naquele recinto, nem mesmo o general. Rezava a lenda que certa vez ele reclamou da comida sem gosto. Inconformada com o comentário, Martina solicitou as férias que se acumulavam há cinco anos e três dias depois embarcou no avião rumo à América. Porém não havia, nem houve, substituto à altura, então o que se seguiu naquela cozinha foi algo tenebroso: refeições salgadas, insossas e por vezes estragadas. A gota d’água foi um cabelo na sopa do general. O próprio exigiu que Martina fosse trazida perante ele e assim aconteceu, mas ela veio com papéis que solicitavam sua imediata transferência. Diante da situação, o general simplesmente implorou para que ela permanecesse. Claro que essa parte da conversa não chegou aos ouvidos de mais ninguém, mas a verdade é que 6 meses depois dessa “reunião” Martina foi promovida.
O cabo pegou o lanche e foi para uma das mesas, enquanto a fila do refeitório crescia formada pelos novatos. Ivan fez uma rápida prece e os observou enquanto lanchava. Boa parte se entrosara, sendo possível ver a formação de grupos, e outros permanecendo a sós. Durante segundos ele olhou através da janela da cantina, pensando no que deveria fazer mais tarde, coisa fácil de imaginar. Sentia uma vivacidade nos olhos e os reflexos mais rápidos: o corpo pedia ação. A preparação para a missão sempre o deixava assim, mas sabia que deveria descansar pelo período da tarde, pois o tempo da missão era impreciso.
Seus pensamentos se desfizeram quando mesa e banco tremeram: a novata sentou-se próxima a ele, que parou de mastigar. O cabo sentiu-se pequeno ao observar o porte da garota, e Ivan não era dos mais baixos ou dos mais fracos, media 1,78m e 84 quilos muito bem distribuídos em sua composição física.
“Guynive S. Troyans” – leu mentalmente a identificação no uniforme da novata.
Esta encarava o lanche na bandeja à sua frente. Com o canto da boca o cabo deu um sutil sorriso como se dissesse:
“– É, tem dias que a refeição também faz parte do treinamento.”
Ela se manteve indiferente ao olhar e ao sorriso, e iniciou a refeição.  Esse foi o primeiro e um dos mais amistosos contatos que tiveram.
O cabo leu a placa anunciando o cardápio para o almoço: almôndegas, mas o pessoal as conhecia como granadas. Riu para si, e a garota o olhou, estranhando.
Josef veio em sua direção desviando por entre as mesas:
– Senhor, os capitães Marquez e Ralf pediram para que os encontrasse, se possível imediatamente.
– Claro.
Ivan se levantou e a olhou pedindo:
– Com licença.
Não teve resposta e também não percebeu que Guynive o observou até passar pela porta. Dali o mensageiro tomou outro caminho.
Pelo caminho Ivan encontrou o sargento Camintown e outros auxiliares. Certamente começariam a acomodação dos novatos e lhes informaria o funcionamento da base.
Camintown era um negro alto e forte, vindo de Nova Orleans. Era carrancudo, mas de boa cordialidade.
– Bom dia, cabo! Está um ótimo dia para movimentar tropas, não acha?
– Bom dia, sargento. Tem razão...
Camintown o observou ressabiado:
– Conheço esse olhar, o que quer me dizer?
– Nada demais sargento, só que os novatos chegaram há pouco e estão exaustos.
– Você não estaria tentando me comover, estaria cabo Ivan? – e lhe lançou um olhar mais detalhista – sempre pensando nos outros. Sequer tem dormido?
Ivan ficou desconcertado com a análise tão assertiva.
– Um pouco, quando dá.
Camintown sorriu mostrando seus dentes brancos como marfim:
– Se o senhor conseguiu aguentar o tranco, os recrutas também podem – respondeu brusco ao sair – até mais ver.
O cabo sabia que ele não cometeria excessos, mas chegaria ao limite dos novatos.
Por ora aquele não era o problema, Ivan conjecturava o motivo de ser chamado enquanto tornou a caminhar. Poucos metros à frente encontrou os capitães e se apresentou a eles. Ao prestar continência percebeu os semblantes abatidos:
– Ivan lhe temos apreço, pois em sua companhia realizamos grandes feitos – começou Ralf.
– Mas nesse momento tudo parece conspirar contra nós – ao que Marquez estendeu-lhe uma pasta – leia o campo 27.
A pasta era um resumo curricular dos recém-chegados. No campo 27 havia a seguinte pergunta:

“TEM EXPERIÊNCIA EM CAMPO/COMBATE?”

A maioria das respostas era:

 “NÃO”

Ivan fechou a pasta e, com olhar sóbrio, encarou seus superiores:
– São apenas recrutas com treinamento básico – Ralf balançava negativamente a cabeça.
– Senhores, creio que à primeira vista seja um grave problema, mas não de difícil solução – observou Ivan.
– Estou preocupado com esse pessoal tão inexperiente num caldeirão como esse nosso – acrescentou Ralf.
– Que fique claro que essa é uma conversa totalmente informal. Pelas regras seria impossível que você nos assessorasse – Marques foi enfático.
– Mas consideramos aqui o seu passado. Sabemos quem você era, e lendo a sua ficha, confirmamos suas ações. Então essa seria uma conversa entre iguais –
Ivan não gostou muito do que ouviu.
– Já passou por algo parecido antes? – Marquez almejava por uma resolução.
– Talvez, mas não consigo organizar meus pensamentos por agora.
– Algo o incomoda? – indagou Ralf.
– Sim, saio em missão dentro de poucas horas.
– Tinha me esquecido, eu também vou. Já liberamos todos os soldados e ficamos nós com nossas conjecturas – confirmou Marquez.
– O problema é tão grave que nos esquecemos das demais coisas. Eu mesmo ainda não tomei o café da manhã.
– Ah não? Então vão até a cantina e vejam se as patentes de vocês podem fazer Martina liberar os lanches – falou Ivan lembrando a situação há pouco vivida.
– Sinto um tom de ironia na sua frase.
Riram e se despediram.
Durante aquele dia Ivan inspecionou todos os equipamentos e conversou com os soldados que participariam da missão, após o almoço estava cansado. Com tudo organizado, caminhou até o alojamento desejando o repouso. Chegando à sua cama, uma carta, onde reconheceu o rementente:

“C. T. COSTELLO – ADVOGADO DE FAMÍLIA – SR. IVAN, FAVOR ENTRE EM CONTATO”

Aquilo lhe causava preocupação. Não sabia como o localizaram, mas esta já era a terceira em dois meses. Ivan banhou-se e após se vestir, ajoelhou orando:
– Deus Altíssimo, ajude-nos com esta demanda. Os riscos são altos e sangue inocente pode ser derramado. Dá-nos tua misericórdia, proteção e sabedoria. Amém!
Quarto em penumbra, silêncio pelos corredores. Rápido o sono lhe veio.



[1] C130 Hércules - Avião de que possui muita versatilidade. Pode levar soldados, veículos, equipamentos, e até mesmo abastecer outras aeronaves.

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